A [Im]produtividade que Desemprega

O Brasil está trabalhando muito, produzindo pouco e punindo quem sustenta a economia. Essa é a grande tragédia econômica nacional. Enquanto o trabalhador perde poder de compra, o empreendedor fecha as portas e as empresas fogem do país, o governo insiste em discutir soluções populistas eleitoreiras que ignoram o verdadeiro problema brasileiro: o Custo Brasil.

Todos os anos, burocracia excessiva, alta tributação, insegurança jurídica, infraestrutura precária, excesso de encargos e dificuldades regulatórias custam ao setor produtivo o equivalente a cerca de 20% de todo o PIB brasileiro. É um peso gigantesco colocado sobre quem produz, investe, empreende e gera empregos. O resultado é um país cada vez mais improdutivo. Hoje, cada hora trabalhada no Brasil gera cerca de US$ 21 em produtividade, enquanto nos Estados Unidos esse número gira em torno de US$ 90 por hora trabalhada. O trabalhador brasileiro possui aproximadamente ⅕ (um quinto) da renda média do trabalhador francês e, ainda assim, possui mais direitos trabalhistas formais em diversos aspectos. Na França não existe FGTS. Em países escandinavos, o 13º salário não é obrigatório. Direitos são importantes, mas precisam caminhar junto com produtividade, competitividade e sustentabilidade econômica.

É justamente nesse cenário de baixa produtividade, excesso de custos e perda de competitividade que o governo Lula decide acelerar a PEC do fim da escala 6×1. Evidentemente, discutir qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho é legítimo e necessário. Mas a pergunta central é: 2026, ano eleitoral, é realmente o momento adequado para aprovar às pressas uma mudança estrutural dessa magnitude? Lula quer aprovar de supetão essa proposta e ainda fazê-la entrar em vigor antes de o brasileiro ir às urnas. O setor produtivo pediu um período de transição de 10 anos para adaptação. O governo ignora completamente. Isso não é responsabilidade econômica. É cálculo eleitoral.

E existe um problema ainda maior: a proposta do governo não prioriza a flexibilização. Como encaixar mais de 2.400 ocupações diferentes dentro de uma única regra trabalhista? Isso é inviável e completamente desconectado da realidade econômica brasileira. Um vigilante deve possuir exatamente a mesma dinâmica de jornada que um pequeno comerciante? Um restaurante familiar deve funcionar sob as mesmas regras de uma multinacional? A experiência internacional mostra justamente o contrário. A maioria dos países que reduziram suas jornadas fez isso por meio de mecanismos de negociação coletiva, transição gradual e adaptação setorial, permitindo que sociedade e economia se ajustassem às novas dinâmicas. Mudanças impositivas simplesmente não funcionam.

Os impactos econômicos dessa proposta podem ser devastadores. Um estudo da FecomercioSP estima um aumento imediato de cerca de 10% nos custos das empresas apenas com a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial. O impacto mínimo estimado seria de R$ 160 bilhões por ano na economia brasileira. O custo do trabalho poderia subir para cerca de 22%, aumentando a inflação, reduzindo produtividade, ampliando riscos trabalhistas e sociais e engessando ainda mais a economia brasileira. Há projeções indicando a eliminação de aproximadamente 1 milhão de vagas já no primeiro ano de vigência da medida, atingindo diretamente cerca de 63% dos trabalhadores formais do país, praticamente dois terços do mercado formal brasileiro.

E aqui entra o aspecto mais perigoso dessa narrativa populista: Lula insiste no discurso divisor do “nós contra eles”, do rico contra o pobre, do empresário contra o trabalhador. Mas essa lógica é falsa e destrutiva. Somos parte do mesmo ecossistema econômico. Não existe desenvolvimento social sem crescimento econômico. Não existe emprego sem empreendedor. E o empreendedor brasileiro não pode ser tratado como vilão. Até porque mais de 90% das empresas brasileiras possuem menos de 10 funcionários, e grande parte delas sequer consegue sobreviver mais de seis anos justamente por causa da combinação tóxica entre burocracia excessiva, alta tributação, insegurança jurídica, encargos trabalhistas elevados e ausência de investimentos em infraestrutura e logística.

O Brasil já vive um fenômeno crescente de pejotização e informalidade justamente porque contratar formalmente se tornou caro, complexo e arriscado. Se essa PEC passar da maneira que Lula deseja, a tendência é clara: mais informalidade, mais fuga de capital e mais empresas deixando o país. Isso já está acontecendo. Mais de 230 empresas brasileiras já possuem sede no Paraguai, onde a carga tributária e os encargos trabalhistas giram em torno de 12%, enquanto no Brasil podem ultrapassar 80%, dependendo do setor e da atividade econômica. O capital não espera. Ele foge de ambientes hostis.

O Brasil precisa urgentemente de reformas sérias, responsáveis e estruturais, não de medidas improvisadas para gerar manchetes em ano eleitoral. Precisamos reduzir o Custo Brasil, simplificar impostos, modernizar a infraestrutura, incentivar produtividade, flexibilizar relações de trabalho e criar um ambiente favorável para quem produz e gera empregos. Sem demonizar o empreendedor. Sem dividir a sociedade entre empresários e trabalhadores. Sem transformar a economia em palanque eleitoral. Lula prega um Brasil mais igual. Certamente será, porque, nesse caminho, corremos o risco de terminar todos igualmente pobres.

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