O deslocamento silencioso da juventude brasileira

Uma mudança importante está acontecendo no Brasil, e ela começa pela base do eleitorado: os jovens.

Desde a redemocratização, a juventude brasileira sempre teve um comportamento relativamente previsível nas eleições. Em praticamente todos os pleitos presidenciais entre 1989 e 2022, os mais jovens tenderam a apoiar candidatos de esquerda. Em 2022, inclusive, a faixa de 16 a 24 anos foi a que apresentou o maior nível de apoio ao candidato vencedor.

Esse padrão, porém, começa a mudar.

Entre 2024 e 2026, o apoio dos jovens ao governo federal caiu cerca de 20 pontos percentuais. Não se trata de um movimento isolado, mas de uma mudança mais profunda no comportamento dessa geração.

O dado mais relevante é que essa queda não ocorreu por falta de políticas voltadas para esse público. Houve iniciativas na área de educação, qualificação profissional e incentivo à permanência escolar. Ainda assim, os resultados não se traduziram em apoio.

O motivo principal está na realidade econômica.

O Brasil encerrou 2025 com uma taxa de desemprego de 11,4% entre jovens de 18 a 24 anos, mais que o dobro da média nacional. Para quem está entrando no mercado de trabalho, a sensação é de dificuldade e incerteza.

Diante desse cenário, muitos jovens deixam de buscar espaço no mercado formal e passam a atuar de forma autônoma. O crescimento do trabalho por aplicativos é um exemplo claro disso. Já são mais de 180 mil jovens atuando como motoristas ou entregadores.

Esse movimento revela uma mudança de mentalidade. A nova geração valoriza independência, renda própria e flexibilidade. Não se trata apenas de necessidade, mas de escolha.

Essa mudança também tem impacto político.

Temas que antes tinham menos peso para o jovem, como carga tributária, passaram a influenciar sua percepção. Medidas que afetam diretamente o consumo e o custo de vida entram rapidamente no radar desse eleitor. A “taxa das blusinhas” foi o maior tiro no pé que o governo federal poderia ter feito.

Ao mesmo tempo, pesquisas mostram uma mudança no posicionamento ideológico. A geração Z já apresenta, em média, maior proximidade com ideias de direita e centro-direita do que o restante da população. As redes sociais têm um papel importante nesse processo, ampliando o alcance de discursos ligados a autonomia, empreendedorismo e crítica ao excesso de intervenção estatal.

Outro ponto relevante é o enfraquecimento de espaços tradicionais de mobilização, como o movimento estudantil. Muitos jovens passaram a se distanciar da política organizada e demonstram maior desconfiança em relação às estruturas institucionais.

Existe também uma questão geracional. Parte da classe política envelheceu e perdeu conexão com a linguagem e as prioridades dessa nova geração.

O que se observa, no conjunto, é um cansaço com a política tradicional. O excesso de disputa ideológica e a falta de respostas práticas para problemas concretos afastam o jovem do modelo que predominou nas últimas décadas.

A geração Z enfrenta desafios reais: dificuldade de inserção no mercado, instabilidade econômica e incerteza sobre o futuro. Diante disso, busca soluções objetivas e menos discurso.

Essa mudança não é apenas eleitoral.
É uma mudança de mentalidade.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Eleuses Paiva

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading