E se uma das variáveis mais importantes das eleições de 2026 não estiver em Brasília, mas em Washington?
Durante muito tempo, os brasileiros se acostumaram a enxergar as eleições presidenciais como um debate exclusivamente doméstico. Emprego, inflação, segurança pública e corrupção sempre ocuparam o centro das preocupações do eleitor.
Mas o mundo mudou.
E talvez uma das grandes novidades das eleições de 2026 seja justamente a influência crescente da geopolítica sobre o debate político nacional.
Vivemos hoje um cenário internacional mais instável, mais competitivo e mais conflituoso. A guerra na Europa, as tensões no Oriente Médio, a disputa entre Estados Unidos e China e o aumento dos gastos militares ao redor do mundo demonstram que a segurança internacional voltou ao centro das preocupações das grandes potências.
Nesse contexto, surge uma variável que pode ter impacto no debate eleitoral brasileiro: Donald Trump.
De volta à Casa Branca, Trump retomou uma visão mais assertiva da política externa americana, baseada no fortalecimento da influência dos Estados Unidos em regiões consideradas estratégicas. Em muitos aspectos, observamos uma reatualização da velha lógica da Doutrina Monroe, que historicamente enxergava a América Latina como área prioritária para os interesses americanos.
Trump até brinca com isso quando atualiza a Doutrina Monroe por Doutrina Donroe.
E o Brasil está no centro dessa equação.
Não por acaso, movimentos recentes chamam atenção. A aproximação entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro é um deles.
Mais do que uma relação política entre lideranças do espectro da direita mais ideológica, o episódio levanta uma questão importante: em um mundo cada vez mais competitivo, quem possui melhores condições de dialogar com a principal potência do planeta?
O próprio Flávio Bolsonaro chegou a afirmar recentemente que teria condições de manter um canal direto de diálogo com Trump em meio às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Outro episódio relevante envolve o combate ao crime organizado.
Nos últimos meses, autoridades americanas passaram a tratar facções criminosas transnacionais sob uma ótica cada vez mais próxima das ameaças à segurança nacional. A discussão ganhou repercussão no Brasil justamente por contrastar com a hesitação do governo Lula em adotar classificações semelhantes.
O que esses episódios revelam é que a política externa e a geopolítica estão deixando de ser temas distantes para entrar diretamente no debate político nacional.
O eleitor continuará preocupado com emprego, inflação e segurança. Mas temas como a relação com os Estados Unidos, o combate ao crime organizado, a influência chinesa na região e o posicionamento internacional do Brasil tendem a ganhar espaço na disputa eleitoral.
As eleições de 2026 continuarão sendo decididas pelos brasileiros.
Mas seria um erro imaginar que elas ocorrerão isoladas do mundo.
Talvez, pela primeira vez em muito tempo, uma das variáveis mais importantes da disputa presidencial não esteja apenas em Brasília.
Ela também esteja em Washington.

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