A teia vorcárica e a “cura” da polarização

Nessa última semana, o Brasil recebeu mais uma demonstração de que a teia vorcárica ultrapassou partidos, governos e ideologias. O que antes parecia atingir apenas determinados grupos políticos agora se revela um fenômeno muito mais amplo, capaz de conectar personagens dos mais diferentes campos do poder.

A nova revelação envolve um influente político da esquerda que teria mantido relações próximas com Daniel Vorcaro e seus sócios. Mas a verdade é que a notícia já não surpreende. Nos últimos meses, lideranças do Centrão, da direita e agora da esquerda passaram a aparecer associadas, em maior ou menor grau, aos círculos de influência que gravitavam em torno de Vorcaro.

Existe até um bordão em Brasília:

“Se Vorcaro não foi falar com você, significa que você não era importante.”

A frase é dita em tom de brincadeira, mas talvez seja uma das descrições mais precisas daquilo em que se transformou a nossa República.

Porque ela revela algo maior do que um escândalo financeiro. Revela a proximidade excessiva entre poder político, poder econômico e influência institucional.

Daniel Vorcaro tornou-se o personagem central daquele que pode ser lembrado como um dos maiores escândalos financeiros da história brasileira. Estamos falando de mais de R$ 60 bilhões envolvidos em operações hoje questionadas por autoridades, investidores e pelo mercado. Milhares de brasileiros confiaram suas economias e seu patrimônio a estruturas que agora estão sob suspeita.

E qual tem sido a reação da nossa classe política?

A mesma de sempre.

Ninguém sabia de nada.

Ninguém era próximo.

Ninguém tinha relação.

De repente, aqueles que ontem apareciam em fotografias e eventos passaram a agir como se jamais tivessem ouvido falar dos personagens envolvidos.

Enquanto isso, o cidadão comum continua trabalhando, pagando impostos e assistindo a manchetes sobre bilhões de reais, relações obscuras e escândalos que parecem nunca produzir consequências proporcionais para os responsáveis.

Essa é a verdadeira banalização da corrupção no Brasil.

Paradoxalmente, Vorcaro talvez tenha feito algo que décadas de debate político não conseguiram: mostrar que a corrupção não reconhece fronteiras ideológicas.

A teia vorcárica desmonta uma das grandes ilusões da política brasileira: a ideia de que todos os problemas do país podem ser explicados pela disputa entre esquerda e direita.

Porque a corrupção não é de esquerda.

Não é de direita.

Ela é suprapartidária.

Ela se alimenta de influência, proximidade e acesso.

E talvez o aspecto mais perverso dessa dinâmica seja a ausência de um verdadeiro contraponto. Quando um escândalo atinge a direita, a esquerda o transforma em arma política. Quando atinge a esquerda, a direita faz exatamente o mesmo.

Mas raramente alguém está interessado em reformar o sistema.

O objetivo costuma ser apenas substituir os ocupantes da mesa.

Por isso, grande parte do espetáculo político brasileiro não passa de uma disputa por espaço dentro da mesma estrutura de poder.

Mudam os personagens.

Mudam os discursos.

Mudam as siglas.

Mas os mecanismos permanecem os mesmos.

Talvez o Brasil não esteja dividido entre esquerda e direita.

Talvez esteja dividido entre quem paga a conta e quem está sentado à mesa.

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